Blog

24 de fevereiro de 2026

Inteligência Artificial, Inteligência Emocional e Quociente de Inteligência – Uma Visão Sistêmica

A relação entre Inteligência Artificial (IA), Inteligência Emocional (IE) e Quociente de Inteligência (QI) revela, em si, três dimensões distintas, porém interligadas, daquilo que convencionamos chamar de “inteligência”. Embora compartilhem estruturas conceituais relacionadas à cognição, processamento de informação e tomada de decisão, seus fundamentos ontológicos e funcionais são profundamente diferentes.

O conceito de Inteligência Emocional (IE) foi amplamente desenvolvido por Daniel Goleman e refere-se à capacidade humana de reconhecer, compreender, regular e utilizar emoções de maneira adaptativa. Trata-se de uma competência neuropsicológica que envolve integração entre sistemas límbicos e regiões do córtex pré-frontal, permitindo empatia, autorregulação e habilidades sociais complexas.

Já o Quociente de Inteligência (QI), derivado dos estudos iniciados por Alfred Binet, mede predominantemente habilidades lógico-matemáticas, linguísticas e espaciais. O QI avalia padrões de raciocínio abstrato, memória de trabalho, velocidade de processamento e resolução de problemas estruturados. É resultado estatístico de comparação populacional altamente eficaz para estimar desempenho acadêmico e determinadas capacidades analíticas.

A Inteligência Artificial (IA), por sua vez, é um constructo tecnológico. Desde as formulações iniciais de Alan Turing e o desenvolvimento do chamado “Teste de Turing”, a IA tem evoluído por meio de algoritmos de aprendizado de máquina, redes neurais profundas e processamento massivo de dados (big data). Seu funcionamento baseia-se em modelagem estatística, otimização matemática, extenso volume de informações e reconhecimento de padrões em larga escala.

 


Leia também:


 

Do ponto de vista técnico, sistemas de IA podem superar humanos em tarefas específicas que exigem velocidade de cálculo, análise combinatória ou processamento simultâneo de grandes volumes de informação. Contudo, esses sistemas operam por correlações estatísticas e não por vivência fenomenológica. A máquina não sente e não se emociona. Esses sistemas, por razões óbvias, não possuem consciência, intenção ou emoção decorrente de experiências subjetivas, que são elementos centrais para a construção da empatia humana.

A capacidade de se colocar no lugar do outro, a solidariedade e o calor humano emergem de experiências encarnadas, história pessoal, cultura e interações sociais complexas. São vivências fenomênicas do mundo dos humanos que superam a simulação comportamental dos dados objetivos.

Ainda que algoritmos consigam identificar padrões emocionais em expressões faciais, voz ou texto e até mesmo gerar respostas linguisticamente adequadas, isso constitui modelagem preditiva distinta de sentimento. A IA reconhece probabilidades de estados emocionais. O ser humano sente. Essa distinção é fundamental.

Portanto, traçando um paralelo entre os conceitos aqui analisados, pode-se argumentar que a IA pode replicar aspectos do QI, mas não reproduz a totalidade estrutural da IE. A Inteligência Emocional depende de substrato biológico, consciência subjetiva e intersubjetividade social. As interações humanas geram as emoções que, por sua vez, geram as respostas individuais. Enquanto a IA opera por processamento simbólico e estatístico, a experiência humana integra cognição, emoção e corporeidade.

Isso não significa que a IA seja inferior, mas que ela pertence a uma categoria distinta de inteligência. O avanço tecnológico pode ampliar nossa capacidade analítica, mas não substitui o valor adaptativo das emoções humanas na construção de vínculos de confiança e cooperação.

Curioso se questionar que se as IA’s trabalham com um conjunto de respostas individuais que, por sua vez, são subjetivas, como dizer que nelas, nas IA’s, não há sentimento? A lógica da inversão poderia ser dita aqui como conclusão retórica.

Em síntese, mesmo com algoritmos sofisticados e bases massivas de dados, a produção digital continuará sendo uma simulação funcional de respostas emocionais. Empatia, solidariedade e calor humano permanecem fenômenos emergentes da experiência humana encarnada e, até onde a ciência contemporânea permite afirmar, não redutíveis a linhas de códigos ou algoritmos.

 

Artigo publicado por Valério Ribeiro na edição nº427 da Revista Em Voga.

Notícias relacionadas