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20 de julho de 2026

Inteligência Artificial, Emocional e Pragmática: o triângulo da decisão humana

A leitura da obra “Inteligência Pragmática: A Habilidade Humana que a IA Nunca Substituirá“, de Max Peters, desperta uma reflexão que talvez vá além da própria proposta do autor. Embora a obra concentre sua análise na distinção entre a inteligência artificial e a inteligência pragmática, é possível perceber que existe uma terceira dimensão indispensável para compreender o processo de tomada de decisões, qual seja a inteligência emocional. Juntas, essas três formas de inteligência não competem entre si. Ao contrário, complementam-se e revelam diferentes níveis do funcionamento da mente humana.

A inteligência artificial representa, por excelência, o domínio da objetividade, a predição algorítmica na Big Data. Seu funcionamento baseia-se na identificação de padrões, na análise estatística, na correlação de dados e na produção de respostas fundamentadas em probabilidades. Para a inteligência artificial, uma decisão é sempre resultado de um conjunto de variáveis previamente processadas. Por meio de modelos matemáticos, ela responde “o que pode ser feito?“.

No extremo oposto encontra-se a inteligência emocional. Se a inteligência artificial organiza os fatos, a inteligência emocional organiza a experiência subjetiva da existência. Ela não responde apenas ao que sabemos, mas ao que sentimos. Medo, esperança, confiança, empatia, indignação, entusiasmo e compaixão constituem elementos que orientam silenciosamente boa parte das decisões humanas. A inteligência emocional responde, de forma subjetiva, “o que deve ser feito?”.

Enquanto a inteligência artificial trabalha predominantemente no plano objetivo, a inteligência emocional opera no plano subjetivo. Ela interpreta significados, percebe intenções, identifica estados afetivos e compreende nuances que escapam aos modelos formais. Um mesmo conjunto de palavras pode transmitir acolhimento ou rejeição, dependendo do contexto, da entonação, da história compartilhada entre as pessoas e da sensibilidade de quem as recebe. Esses elementos dificilmente podem ser reduzidos a equações.

É exatamente entre esses dois polos, a objetividade da inteligência artificial e a subjetividade da inteligência emocional, que emerge a inteligência pragmática. Ela não substitui nenhuma das duas. Ela atua como elemento integrador. Sua função consiste em transformar informação, conhecimento, emoções, valores, contexto e experiência em ação concreta. A inteligência pragmática responde “o que precisa ser feito?”. Essa diferença é decisiva. Toda decisão importante da vida humana exige a convergência dessas três dimensões. Há uma complementaridade entre o objetivo, o subjetivo e o prático.

 


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Em uma decisão judicial, por exemplo, a inteligência artificial poderá apresentar toda a legislação aplicável, os precedentes judiciais, estatísticas de decisões semelhantes e até sugerir probabilidades de reforma da sentença em instâncias superiores. A inteligência emocional permitirá compreender o sofrimento das partes, perceber as consequências humanas da decisão e reconhecer aspectos que transcendem a literalidade da norma. Entretanto, nenhuma dessas inteligências, isoladamente, produzirá a decisão. Caberá ao juiz, aplicador da norma, exercer sua inteligência pragmática para ponderar princípios, avaliar circunstâncias específicas e assumir a responsabilidade pela escolha realizada.

Situação semelhante ocorre na medicina. A inteligência artificial identifica padrões diagnósticos com precisão crescente. A inteligência emocional permite compreender o medo do paciente, suas expectativas e seus valores pessoais. Contudo, é a inteligência pragmática que integra essas informações para definir o tratamento mais adequado naquele contexto específico ou para dar uma notícia difícil aos familiares. Não existe algoritmo capaz de substituir integralmente esse processo porque ele envolve não apenas conhecimento técnico, mas responsabilidade moral. O mesmo raciocínio aplica-se à liderança, à educação, à política, à gestão empresarial e às relações familiares.

O ser humano aprende a decidir porque vive. Aprende porque erra. Aprende porque sofre as consequências de suas escolhas. Aprende porque observa outras pessoas, revisa convicções, amadurece e modifica seus próprios critérios ao longo da existência. Cada decisão torna-se parte de um patrimônio invisível de experiências que orientará decisões futuras. Esse patrimônio não é apenas um banco de dados. É uma história vivida.

No futuro, talvez o profissional mais valioso não seja aquele que souber mais, nem mesmo aquele que executar melhor. Será aquele que, utilizando a inteligência artificial como instrumento, governando suas emoções com maturidade e desenvolvendo continuamente sua inteligência pragmática, for capaz de tomar as decisões mais acertadas diante da incerteza. Porque, em última análise, conhecimento informa, emoção humaniza e pragmatismo executa. Mas é o julgamento, alimentado pela experiência e orientado pela responsabilidade, que transforma essas três dimensões em verdadeira sabedoria.

 

Artigo publicado por Valério Ribeiro na edição nº432 da Revista Em Voga.

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